
Como toda história tem um protagonista, estou aqui contando minha trajetória, e posso dizer que o cenário onde cresci, extremamente rico cultural e artisticamente, teve um papel importantíssimo para formar o protagonista que sou hoje.
E dentro desse cenário há dois contextos importantes e essenciais para minha formação como protagonista. O primeiro deles é a adversidade que me provoca uma vontade imensa de sobreviver, apesar dela. Desde muito pequeno, apesar de eu sentir que estava vivendo uma situação difícil, em uma família que muitas vezes não se encaixava perfeitamente nos padrões que a sociedade exigia, não me lembro de perder muito tempo sofrendo.
Observava meus amigos e até alguns primos que tinham mães mais tradicionais que a minha, que faziam bolo e eram mais tranquilas. Ela às vezes fazia bolo, mas não era uma mãe comum. Eu e meus irmãos não encontrávamos nada disso em minha mãe e, muitas vezes, era só o que queríamos. Por outro lado, tinha algo nela que quase nenhuma mãe de amigo meu tinha: sua alma, sua alegria intensa, sua pele que parecia transbordar arte pelos poros. Exemplo disso é que uma vez “descobrimos” minha mãe na televisão cantando como backing vocal do Tom Jobim. No início não acreditei, chamei minha avó, que me confirmou: era ela mesma! Com o passar do tempo, fui lidando bem e até me divertindo com essas “surpresas”.
Também lembro com riqueza de detalhes do dia em que eu e meu irmão, aos 11 e 9 anos respectivamente, estivemos no auditório do “Programa Raul Gil”, onde ela se apresentou vestida com um terninho rosa num quadro de
calouros cantando “Saigon”. A então jurada Marly Marley (1938-2014) literalmente “descascou” minha mãe, mas mesmo assim Raul Gil gostou tanto dela que lhe deu uma pulseira de ouro.
Em outra ocasião, minha mãe levou o cantor Cazuza (1958-1990) para dançar no meio da pista da boate The Wall, em Piracicaba, na época uma das mais frequentadas da cidade. Cazuza estava no auge de sua carreira e ela fez amizade com ele por causa da minha tia Rê que morava no Rio de Janeiro. Me lembro dele chegando na minha casa, eu bem pequeno sentado na entrada e ele muito gentil e conversador. Eu tinha no máximo 5 anos.
Samira Kraide, grande amiga da minha mãe, contou que um dia no Rio de Janeiro elas foram parar numa festa na casa da Regina Casé, onde estavam muitos artistas, entre eles Caetano Veloso, Giberto Gil e Gal Costa (1945-2022). Samira se diverte lembrando que minha mãe ficou brava porque ela estava encantada e pediu para ela ser mais discreta, mais blasé: “Disfarça, Samira!”.
Creio que toda a dinâmica familiar fora do convencional na qual cresci me ajudou a desenvolver a resiliência, que contribuiu muito para formar o comportamento empreendedor que tenho hoje.
Minha resiliência diante da diversidade e adversidade me torna um protagonista.
Creio também que dessa resiliência veio um senso de responsabilidade muito forte. Sou o primeiro filho do relacionamento da minha mãe com meu pai. Ela já tinha minha irmã Andréa, de um relacionamento anterior.
Logo que recebemos a notícia da morte do meu pai, meu irmão Pedro – na época, com apenas dois anos de idade – sofreu uma reação neurológica muito severa, que o impediu de andar e falar. Com isso, meus avós tiveram que levá-lo para Ribeirão Preto em busca de tratamento para esta reação, e a partir desse momento, eu fiquei mais independente. Apesar de muito novo, compreendi que meu irmão menor precisava de mais atenção e cuidado naquele momento, e foi como se eu buscasse fazer a minha parte em todo esse processo.
Me lembro de algumas cenas, como eu, ainda muito pequeno, amparando meu irmão, disciplinando – quase que como um pai mesmo. Isso me impactou, porque me trouxe ainda bem cedo um senso de responsabilidade, uma tendência a um amadurecimento precoce, o que chamam hoje de autorresponsabilidade.
Posso dizer que o que me tornou um líder, um protagonista, foram dois fatores que começaram a me instigar bastante, principalmente entre os meus 15 e 25 anos: a resiliência devido à uma vida atípica, difícil, não convencional e diversificada, e o impacto de uma perda muito aguda que me levou à autorresponsabilidade de forma precoce.
Era como se – ainda que inconscientemente – eu pensasse:
— Preciso achar sucesso no meio dessa confusão toda.
Estou falando do nascimento de um protagonista, e isso nos remete a uma pergunta indispensável: o protagonista sempre já nasce pronto, ou assim se forma durante a sua caminhada?
1As influências na formação de um protagonista
Meus irmãos foram e ainda são meus primeiros professores. Minha convivência com meus irmãos é um dos maiores motivadores da minha criatividade. De formas diferentes, Andréa e Pedro estimulam em mim memórias muito fortes de astúcia, alegria e resiliência.
Andréa é uma mulher muito justa, humilde e alegre. Sua inteligência e gosto pela leitura a tornam uma pessoa agradável e cheia de histórias. Tenho um orgulho gigante de sua educação e gentileza, fatores importantes para a vida pessoal e profissional. Podemos conversar horas e horas sem repetir assunto, rindo e alternando nossa convivência entre afinidades artísticas, gastronômicas e intelectuais. Sua vida não foi das mais fáceis, mas sempre estivemos juntos. Em minhas lembranças de infância, tenho seu gosto pelo espelho, roupas coloridas e as músicas da Madonna, que na época eram bem malucas para um moleque. Hoje sei que temos muitos gostos parecidos, afinal, somos bons librianos. Ela me trouxe o primeiro sobrinho, Stefano, com quem convivi muito e aprendi a ser o pai que me tornei.
Pedro é um HD ambulante. Quem me conhece sabe de minha boa memória (adoro decorar sobrenomes, datas, números de telefone, RG e CPF), mas a dele é algo impressionante. Ele lembra da música que tocava, da hora, dos diálogos, das pessoas, das roupas, da temperatura que fazia no dia, enfim, é uma delícia lembrar das coisas boas de nossa infância, porque podemos revivê-las. Desde muito pequeno, sua sensibilidade é muito forte. Ele é reservado, mas aos seus consegue promover momentos mágicos. Tem um humor
muito inteligente, faz imitações e consegue reunir muitas pessoas em torno de suas inspirações. Desde pequenos tivemos acesso a muitos recursos para brincar, como Lego, bonequinhos, videogame e as brincadeiras de rua, patins, skate, clube e festa. No final da adolescência, se tornou pai e me presenteou com uma sobrinha e afilhada incrível, Isabela. Com a administradora Helen partilha mais de 20 anos de um relacionamento cheio de crescimentos, e ganharam também Maria, minha segunda sobrinha. Como especialista em meio ambiente, inovação e empreendedorismo 4.0, está trilhando uma carreira linda, que ele faz questão de sempre lembrar: inspirado por nosso pai. Ele ensina e desvenda muitos mitos corporativos para o trabalho de um futuro que já chegou, a construção de ambientes colaborativos e inovadores para profissionais e empresas. Ele é o próprio HUB!
Aqui vou explorar mais um pouco a influência de meu pai e suas raízes peruanas na minha formação protagonista. Entender a vida do meu pai foi algo importante na construção de meu protagonismo. Isso se fortaleceu com nossas primeiras idas ao Peru, quando eu e meu irmão estávamos entrando na adolescência. Eu e meu irmão somos muito parecidos fisicamente com ele, temos os traços peruanos muito fortes, assim como nossos filhos: morenos, olhos amendoados e, diríamos, belas orelhas. Muitas de suas histórias, como as bebedeiras e confusões entre os estrangeiros na Casa do Estudante, estão em cartas que ele trocou com meu tio Ricardo quando estava no Brasil, e com minha mãe quando retornava ao Peru. Tivemos acesso a estas correspondências quando, por ironia do destino, tanto o pai de minha irmã quanto ele morreram em períodos próximos, deixando minha mãe com seus três filhos sem pai. Dele herdamos tantas coisas boas, um sobrenome diferente e uma família cheia de amor. Logo após sua morte, seus amigos plantaram uma árvore na Rua Hermilio Valdizán, no bairro de Jesus Maria, em Lima. Hoje um ficus gigante, igual o amor e a vontade de crescer que está em nosso DNA. Como uma espécie de elo mantido neste clã, tivemos a contínua comunicação com nosso tio Ricardo, que além de seus três filhos e meus outros primos, nos tem como seus “sobrijos” (um neologismo com as palavras sobrinos e hijos). Com ele ganhamos também nossa tia Mary, que coincidentemente tem sete irmãos como minha mãe, e todos eles sempre foram muito amorosos conosco. Além disso, os irmãos de tia Mary nos ensinaram o que é uma festa de verdade.
São as memórias construídas que mantêm os elos do amor. E são as influências recebidas nos elos vividos e construídos que formam um protagonista desde o ninho.
2A formação de um protagonista
Há quem diga que um protagonista já nasce com o protagonismo dentro de si, mas também há quem fale que essa característica pode ser desenvolvida ao longo do tempo. E quem está certo nessa história toda? Eu digo: ambos! Eu mesmo sou a prova disso.
Como já contei, tive experiências que desenvolveram esse protagonista em mim. Por outro lado, esse desenvolvimento foi de um perfil pré-existente, talvez, desde o meu nascimento, algo como uma herança que recebi dos meus pais.
Lembro-me que desde os três ou quatro anos de idade, eu gostava de subir ao palco, acenar para a plateia – se estivesse cheia, ótimo, se não, eu inventava que havia gente ali – gostava do holofote, dos concursos de arte da escola, em que podia dançar, cantar, ser premiado, como nos festivais de dança e teatro que participei desde pequeno.
Por isso creio que o protagonismo tem duas vertentes muito importantes. A primeira é nata. Uma personalidade de protagonista, a qual eu acredito que há em mim desde sempre. É um sentimento, como se algo dentro de mim dissesse:
— Não tem ninguém lá em cima daquele palco, alguém tem que subir primeiro e esse alguém é você.
Há protagonistas assim, que já nascem prontos para começar, porque têm uma pré-disposição, mas isso não quer dizer que esse caráter não possa se desenvolver com o passar do tempo, aí reside a outra vertente. A segunda é desenvolvida.
Minha história comprova bem essas duas vertentes que o protagonismo pode seguir. Cabe ao protagonista identificar como suas próprias vivências podem fazê-lo avançar no desenvolvimento desse perfil.
Mas aí você pode me perguntar:
— Ok, Bruno! Mas e no caso de alguém que nasceu com 0% de protagonismo, há alguma chance de desenvolver esse perfil?
Bom, tenho absoluta certeza que sim. A começar pelo fato de que de alguma forma já fomos e podemos decidir todos os dias sermos protagonistas de nossas próprias vidas. Este já é um bom começo.
Temos que decidir todos os dias sermos verdadeiros protagonistas de nossas vidas.
Falando de forma mais ampla sobre a questão de desenvolver de fato um protagonismo, aquele que nos faz subir ao palco, lidar com a timidez, tomar à frente das situações, entre outras atitudes, creio que é importante nos atentarmos para alguns fatores principais no desenvolvimento desse perfil.
Para aqueles que não têm um protagonismo nato, mas têm vontade de desenvolvê-lo, inevitavelmente, vale lembrar que existe um processo para construir esse perfil. Muito provavelmente, ele será um pouco mais lento que o avanço daqueles que já nasceram protagonistas, mas não é impossível. O processo de construção de um protagonista envolve quatro elementos muito importantes:
• Disciplina; • Alegria; • Gentileza; • Resiliência.
A disciplina é essencial para que o candidato a protagonista se treine efetivamente no ato de se posicionar, inserindo-se de forma a assumir o papel central de sua própria vida em um plano mais geral ou no ambiente de trabalho, que seria um plano mais segmentado ou público. A alegria tem nesse processo o papel de ajudar a tocar com leveza – na medida do possível – para que essa sequência de esforços não se torne tão pesada, como pode parecer às vezes com tanta disciplina, e por conseguinte, não pareça mais longa do que ela realmente é. Funciona como um contrapeso da disciplina.
A gentileza tem sua importância nesse processo, porque é muito provável que o protagonista não seja sempre tão bem recebido por todos em sua caminhada. Muitas vezes ele vai esbarrar em impedimentos, não só por parte dele mesmo, gerados por suas crenças limitantes, mas também pela falta de aceitação de outras pessoas, que no caso, são o seu “público”. Não é tão fácil subir no palco, não é tão fácil alcançar esse brilho do sucesso que é
algo tão evidente do protagonismo. Por isso, nesse aspecto, a gentileza surge como uma chave capaz de abrir muitas portas, cadeados, desarmar posturas carrancudas, ganhar sorrisos e conquistar parceiros e público.
Por fim, há um fator que eu poderia dizer que é a linha transversal que costura todos esses elementos, deixando-os bem acoplados: a resiliência.
A resiliência é necessária em todas as etapas do processo porque nos ajuda a cultivar a disciplina; a manter a alegria, mesmo nos momentos mais complicados; e a sermos gentis, mesmo quando achamos que as pessoas não merecem ou quando nos sentimos cansados demais para isso.
A verdade é que a vontade de ser protagonista vai ser testada, provada, confrontada o tempo todo, e por isso é importante estar preparado.
3O protagonista legitimado
Outro ponto importante da caminhada de um protagonista é que o protagonismo é uma via de mão dupla. Como já contei, sempre gostei de subir ao palco para ser visto e ouvido, falando cada vez mais para um maior número de pessoas, observado pelo público e quando não havia plateia eu a criava. Por quê? Porque o público é uma parte muito importante dessa relação.
O protagonismo é uma relação entre quem protagoniza e o público.
Se o protagonista não for aceito, reconhecido como tal, se não tiver a permissão do público, ele não avança na construção de seu perfil.
— Mas e então, Bruno? O que o protagonista deve fazer diante disso? Desistir?
Não! Como falei, esse não reconhecimento do protagonista pelo público é parte das provações que ele terá em sua caminhada, na qual são necessários aqueles quatro pontos: disciplina, alegria, gentileza e resiliência.
Cabe ao protagonista estudar o seu próprio perfil e ver o que está faltando ser levado ao palco. Vale lembrar que esse “algo mais” não deve ser fingido, falseado, mas buscado pelo protagonista dentro de si, algo que ele tenha consigo, talvez ainda escondido, um diamante bruto ainda não lapidado que irá encantar o público. E algo muito importante é saber que o palco não estará sempre iluminado com gente na plateia.
Lembro-me bem de quando eu era garoto, que sonhava em ser o representante de classe na escola, mas isso não aconteceu. Entre outros motivos, meus colegas não me reconheciam ainda como um líder naquela função e eu não conseguiria liderar só por querer aquilo, eu precisava conquistar meus liderados. Naquela época, apesar de já ter o protagonismo dentro de mim, não sabia moldá-lo para a liderança.
Por isso, creio que há um contexto social para que haja êxito. Há também uma verdade sobre esse cenário que deve ser dita: nem todos sobem ao palco e nem todos ficam na plateia. No momento em que a plateia se forma, há espaço para que os atores subam ao palco e, dentre eles, o protagonista se revela.
Essa permissão do público é necessária, importante, mas antes mesmo dela acontecer é preciso que o próprio protagonista se enxergue:
— Sou um protagonista e quero assumir esse lugar!
Na plateia existem pessoas que de alguma forma se identificam com você, se enxergam em você, querem o que você está oferecendo. Isso serve também para as empresas que têm seus “públicos-alvo”. Você precisa se perceber e às vezes ser o galo que vai cantar em outra freguesia, com gente que é da sua turma, mudar de público e até se retirar, se for preciso.
Quando assumi meu protagonismo, nem mesmo tinha ideia do que isso significava ou de todos os efeitos que isso iria surtir em minha vida. À medida que esse meu perfil era construído pelo contexto extremamente rico no qual cresci, ouvindo músicas de Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tim Maia, Roberto Carlos e Zizi Possi como canções de ninar, desenvolvi uma sensibilidade artística mais apurada e um desejo imenso de protagonizar.
Porém, à medida que cresci, passei a entender que o papel do protagonista ultrapassa os palcos, as telas, a televisão, os quadros, as fotos. Ele também implica na construção de valores, de mobilização, antecedência, pioneirismo, liderança e força. E começa em casa.
O protagonista se acostuma a ser o primeiro, a se arriscar com aquilo que é novo.
Ao longo dessa trajetória, percebi que o protagonista dentro de mim estava se desenvolvendo e gerando questionamentos: “Quem é e o que deseja ser efetivamente o protagonista?”; “Quem é o que deseja receber essa influência do protagonista?”.
Entendo que estou escrevendo este livro neste momento da minha vida porque só agora, depois de tantas vivências, meu papel de protagonista ficou muito mais claro para mim. Mesmo trabalhando há mais de 20 anos em diversos projetos de estilos diferenciados nos quais sou protagonista, indo desde um espetáculo de Natal, onde sou o Papai Noel Cantor, até trabalhos na minha carreira de publicitário atendendo clientes e também na rádio, em que sempre assumo a dianteira, sinto que precisei de todo esse tempo para compilar minhas experiências e essas histórias, absorvê-las, para então contá-las aqui.

O protagonista que há em mim nasceu comigo, e se confirmou por meio das atividades que desenvolvi no dia a dia, consolidado na trajetória.
4O sucesso nos rodeia
Nessa minha caminhada, algumas pessoas ajudaram bastante a construir meu perfil protagonista. Além da minha mãe e dos meu avós, quero citar aqui umas senhorinhas que tiveram grande importância, ainda quando eu era criança.
Minha avó materna tinha dez irmãos. E tinha quatro irmãs solteiras, professoras, que moravam juntas no Paraíso, em São Paulo: tia Valdomira, tia Coraly, tia Lourdes e tia Odila. Elas foram sempre muito legais com a gente, porque conseguiram estimular em seus sobrinhos e sobrinhos-netos a autoestima em diversas áreas da vida, como nos estudos e nos negócios, por exemplo.
Elas eram engraçadas, animadas e faziam comidas gostosas. Todas as vezes que nos recebiam faziam delícias na cozinha e nos faziam sentir muito acolhidos com isso. Tinham senso de humor e eram “pra frente”.
Elas nos davam um envelope com 30 reais e lá dentro tinha um bilhetinho escrito:
— Para você comprar um pirulito.
— Meu Deus! Dá pra comprar 1000 pirulitos! – pensávamos.
Essas tias nos ajudaram a crescer alegres, comunicativos, cheios de sonhos, com muita imaginação e criatividade. Tudo isso era estimulado por elas.
O sucesso muitas vezes nos rodeia no cotidiano… e não percebemos!
5O protagonista visto em seu próprio lar
Creio que uma das características que nascem com o protagonista e é a mais difícil de se adquirir é o carisma. Desde muito pequeno eu soube que possuía essa virtude, isso era validado pela reação das pessoas diante do que eu falava ou fazia.
Como comecei muito cedo, as pessoas passaram também a me enxergar desde muito garoto, mas muitas delas não perceberam que o tempo passou e acabaram me vendo sempre como aquele “menino empreendedor que começou aos 15 anos”.
As pessoas sempre me enxergaram como se eu fosse um prodígio, por ter feito coisas incomuns para a minha idade, mas a verdade é que isso não foi fruto de uma luz de inspiração que desceu sobre mim e me iluminou da noite para o dia, me levando a fazer tudo. A diferença é que passei por muitas etapas bem mais cedo do que outras pessoas e busquei tirar o aprendizado de todas essas vivências ainda menino.
Hoje reconheço que comecei cedo sim, mas foi porque quis e não porque alguém me forçou. Eu precisei, mas principalmente quis e me esforcei muito. Fui resiliente desde o começo, aprendi cedo a trabalhar aqueles quatro pontos principais do protagonismo: disciplina; alegria; gentileza e resiliência, e cuidei de exercitar tudo isso com muita vontade.
Então, ao longo de mais de 20 anos construindo conscientemente seu protagonismo, aquele menino mudou, cresceu. Ainda tenho um vínculo institucional com muitos trabalhos que iniciei, porque muitas das coisas que aquele adolescente começou um tempo atrás continuam acontecendo, mas me transformei totalmente e criei novos caminhos. Muitos dos trabalhos que faço hoje criei do zero.
Hoje o menino é formado, pós-graduado, foi professor de pós-graduação, tem sua família, tem uma empresa. Enfim... Passei por todos os processos necessários para chegar até aqui. Dentre aqueles que me viram começar, há quem compreende e reconhece a minha evolução e há aqueles que continuam me vendo como o “garoto prodígio” – creio que não por maldade, mas por algum tipo de nostalgia, talvez, ou dificuldade em reconhecer o avanço do tempo.
De qualquer forma, seja como um garoto prodígio ou como o homem multimídia no qual me transformei ao final das contas, celebro essas visões sobre mim. Ambas me colocam como protagonista, liderando, sendo agente de
mudanças, iniciando coisas novas e sendo sempre observado sobre um palco iluminado, como uma referência, um marco, um norte para outras pessoas.
Assim, não me importo se me enxergam ainda como um garoto cheio de potencial ou como um profissional bem-sucedido. O importante é que as pessoas observam em mim um trabalho resiliente, uma vontade infinita de não abandonar meus barcos criativos e eu coleciono isso dentro da minha história profissional, por isso navego por meio de voos. O desafio é reconhecer que os palcos nem sempre estão iluminados.
6A origem do nome Chamochumbi
Costumo brincar que, como publicitário e artista, ganhei um nome artístico de forma natural. O sobrenome Chamochumbi sempre foi motivo de muitas, mas muitas brincadeiras desde criança. Para nós, eram recorrentes as reações das pessoas quando informávamos nosso nome no primeiro dia de aula, para preencher algum documento ou em uma fila. A resposta era quase sempre a mesma, antes de escrever de todas as formas menos a correta, sempre acompanhada de risadas.
— Como se escreve isso? Não sei escrever!
— Nossa, menino! Não entendi não! Que nome engraçado!
Os apelidos eram inevitáveis: Chamburci, Comechumbo, Chumbinho, ChamaChuva, ChamaKombi, Catchup, Chapolin…
A origem do nome vem do norte peruano, e significa Homem de Ouro. A presença do CH no vocabulário hispânico e até em outros idiomas nativos peruanos, como o quechua, é muito forte. No Brasil somos no máximo oito pessoas com esse nome. Se aparecer mais algum, será provavelmente nosso parente. No Peru teve até uma novela chamada “Los de arriba e los de abajo” com um personagem de nome Chamochumbi.
Para se ter uma ideia, de acordo com o site Forebears, que pesquisa sobrenomes no mundo todo, há menos de 900 pessoas com esse nome em todo o planeta. Temos muitos familiares no Peru com este sobrenome, outros que não são familiares diretos. Temos familiares nos Estados Unidos, e muitos outros que não são.
Como na maioria das vezes eu tenho que escrever meu nome para a pessoa acertar, não é incomum informar o seguinte: escreva do jeito que estou falando, tudo com CH. Se você escrever uma vez não esquece mais.
Por ser tão diferente e sonoro, brinco que nos trouxe muita sorte. Meu pai se foi, mas deixou um nome especial para nós.
Depois de 10 anos no ar com um programa regional na rádio Jovem Pan Piracicaba, acabei criando um bordão: “Aqui é Bruno Chamochumbi, do MBM Escritório de Ideias. E não se esqueça, meu nome é fácil: tem CH no Cha e CH no Chu. É tudo com CH!”. Se tornou uma brincadeira curiosa, um assunto engraçado, uma marca, um nome artístico de verdade e não criado.
Durante a pandemia acabou se fortalecendo muito minha atuação enquanto comunicador, com lives, apresentações e conteúdos nas redes sociais. Nesta época pedi para meu amigo, o designer Guilherme Victoria (o mesmo desse livro), para fazer a identidade visual e depois encomendei um jingle para minha amiga Julia Simões, uma trilha sonora para o #TudoComCH.

7#TudoComCH: Alçando voos
Apesar de não me importar com o fato de ainda ser visto como um “garoto prodígio” em meu próprio ninho, meu lar, minha cidade natal, percebi que à medida que ia crescendo, se evidenciava cada vez mais a vontade – chegando a ser um anseio – de alçar novos voos, para mais longe, buscando olhar para novos horizontes.
Meu avô materno Eduardo é alguém que me inspirou também a alçar novos voos. Ainda tenho viva na memória a lembrança dele me contando uma história muito forte. Com apenas seis anos de idade, ele já ajudava a carregar caixas no Mercado Municipal de Piracicaba. Isso me marcou muito e gerou em mim uma visão muito positiva e apaixonada pelo trabalho. Quanto mais eu ouvia aquela história, mais se fortalecia em mim o conceito de que trabalhar é libertador.
Assim, já aos 14 anos, quando comecei a tomar conhecimento do mundo do trabalho, fui aprender a me virar. Quando quis uma bicicleta e não tinha dinheiro para comprar, fui animar festa infantil, me vestir de palhaço, ser monitor de recreação infantil, animar plateia de programa de televisão. Dos 15 aos 18 anos vivi muitas experiências interessantes para ingressar no mundo do trabalho, que ainda hoje levo com muito carinho. Considero como bases para o estabelecimento de conexões saudáveis com as pessoas, entendendo suas diferenças e potencialidades.
Uma dessas experiências foi me tornar animador de plateia, uma espécie de agitador de público. Chamava as pessoas no palco para dançarem e contarem histórias e deixava a plateia agitada e animada para a hora da gravação do programa. Assim, começando o trabalho de animação com antecedência no palco, todos já estariam conectados e aceitariam meus comandos na hora da gravação (aplausos, silêncio, gritos e outros). Essa também era mais ou menos a dinâmica do “Lhaço”, o Palhaço, quando eu animava as festinhas infantis: gerar identificação com as famílias e crianças. Fico pensando que nesta época meus sonhos de criança se misturavam com as responsabilidades do futuro. Eu conseguia exercer de forma encantadora o lado humano, envolvendo pessoas e oferecendo arte com graça em cores e palavras. Ainda faço isso de formas diferentes, mas com a essência do menino que se entregava sem pudor. Acho que todo mundo deveria experimentar pelo menos uma vez na vida essa sensação de arrancar um sorriso das pessoas, como quando eu me vestia de Maritaka. Era uma roupa quente, de pelúcia, com uma cabeça gigante me deixando quase sem visão. Mas era muito divertido fazer todo mundo chorar de rir. Depois que comecei a ganhar meu dinheiro, entrei no ciclo trabalha, recebe e consome, sentindo um gostinho do que todo adolescente/jovem gosta de sentir: a independência.
Por isso já tinha um conceito muito forte que me levava a associar o trabalho à liberdade. Antes eu não tinha liberdade nenhuma, nem mesmo de sentimentos. Mas a partir do momento que comecei a trabalhar, que consegui minha própria remuneração, aquilo foi muito mágico. E com apenas 15 anos comecei o embrião do projeto que até hoje é minha grande escola: a Casa de Noel.

8Falando com a massa: Carta à mãe!
Já faz tempo que ela partiu. E o vazio que ficou foi porque ela era uma mãe tão diferente, tão imperfeita, tão real. Que acordava a gente de madrugada para tirar fotos e dizer que amava, e beijar, abraçar. Não bastava fazer isso conosco acordados?
Ela deixava infinitos bilhetes escritos nos cadernos da escola, junto com o dinheiro do lanche ou dentro de livros. Eu hoje torço muito para encontrar pelo menos um bilhete inédito.
Ela tinha um humor variável. Uma gentileza surpreendente. Tinha uma ironia difícil de imitar. Pintava, tocava piano, cantava, escrevia. Não tinha vergonha de chorar.
Gostava de cozinhar o mais trivial. Sabia juntar o cheiro do café com o gosto do ovo mole e a música do “Bom Dia Brasil”. Ou só acordava ao meio-dia. Sem meios termos.
Sincera e aguda. Sabia sorrir e abraçar. Sabia fechar a cara e bater o pé.
Não fazia diferença entre lixeiro e banqueiro, entre Fusca e Ferrari.
Falava de feijão, sexo e fé com a mesma naturalidade. Sabia que teria muitos netos. Sentia orgulho leonino de seus filhos. A ponto de mostrar os dentes e garras para defendê-los. Às vezes recomendava que dormíssemos de uniforme para facilitar o acordar no dia seguinte.
Viveu e sobreviveu aos anos 70 e 80. Quem a conhecia sabia que eles não iriam passar. Assistia as barbaridades da humanidade com a certeza que ainda viria o pior e que “afortunadamente” não estaria mais aqui para ver.
Dançando com Cazuza, fugindo para ser backing vocal de um show do Tom Jobim ou cantar no Raul Gil, ela viveu cada dia como se fosse único. Como se ela tivesse tudo para aprender. Como uma menina. Pegou seus meninos pequenos e foi morar em Ilhabela, onde só tínhamos um bugue amarelo e uma natureza incrível. Comíamos peixe e frutos do mar todo dia e tomávamos sorvete Rochinha ao som de A-HA e muita MPB. Que mais eu poderia querer hoje?
Entre perdas e limitações, Maria Isabel Silveira Fernandes Chamochumbi nos deixou um nome grande, um apelido pequeno (Bell) e uma herança rara: nada de dinheiro e um amor infinito.
Nos ensinou o Amor ao próximo.
Arte na veia. Não beba a ponto de cair e não perceber o cachorro lamber sua boca. Telefone para quem ama de vez em quando. Acalente um coração que sofre com olhar, palavras ou presença. Não seja tão rígido. Acredite nos detalhes. Dinheiro acaba. A beleza nunca acaba, só se transforma. Conheça o maior número de músicas, bandas e artistas, pois eles podem salvar você. Os animais são adoráveis e merecem nomes lindos.
Tenha sempre uma criança na família. Reze alto para Deus ouvir. Sinta-se bonito quando sair. Elogie somente quando vier do coração. Tome sol. Leia muito. Ofereça amizade, converse muito, conte suas histórias. Ouça o que as pessoas têm a dizer. Agradeça! E mesmo se estiver doendo muito, mas depois de tentar muito, tenha a consciência da hora de se retirar para sempre de um lugar, da vida de alguém ou de uma ideia.
Estes e tantos outros ensinamentos não foram formais, mas vieram de uma vida cheia de desafios e nós assimilamos pela convivência. Muitos inclusive só nos ficaram claros depois de sua morte. Morte cheia de poesia e gratidão. Sem dor. E diante de um câncer fulminante, o cumprimento de uma missão na qual como filhos tivemos a oportunidade de estar presentes no fim. Fim que se concretiza exatamente no momento em que dissemos amém. A despedida foi numa oração. E a vida continua.
Tudo fica bem depois do amém, pra quem fica e pra quem vai. Eu sei.
Valeu, mãe! Seu amor pela arte e entrega estão em meu DNA, na memória e no coração. Você conseguiu!
